Rodrigo Rodrigues Alvim
01. Embora haja diferentes tradições de pensamento - como a denominada
“filosofia oriental”, as de origem africana ou gestadas entre os povos
originários latino-americanos, etc. -, a filosofia de que ora trataremos, no
que consideramos ser os seus primórdios, se restringirá aos limites do que
chamamos Ocidente, em sua versão estritamente europeia, em termo atualmente
mais usual.
02. Muito se tem caminhado ultimamente para se escapar desse
eurocentrismo, mas não ainda o suficiente. O pensamento europeu nos é,
certamente, muito importante, seja porque a cultura brasileira a tem como uma
de suas matrizes culturais, seja porque foi uma cultura que se impôs – nem
sempre em virtude da admiração estrangeira – a quase todos os povos do mundo
moderno. Essa imposição implicou, muitas vezes, em práticas de extermínio de
culturas diversas, especialmente daquelas que mais procuraram resistir ao
domínio europeu – o que resultou, inclusive, no desaparecimento de sua gente.
Porém, a denúncia desse processo e a defesa desses povos oprimidos foram
encontrando eco dentro da própria Europa, desde Michel de Montaigne, já no
século XVI, até mais enfaticamente com Jean-Paul Sartre, na segunda metade do
século XX, sendo hoje dominante entre historiadores, sociólogos e filósofos.
03. Pelos elementos materiais que nos chegaram até o presente, desde
utensílios ordinários a escritos do passado, às vezes fragmentados, mas que não
cessam de nos chegar pelos trabalhos especialmente arqueológicos, a cultura
grega antiga ainda se coloca como berço privilegiado da cultura europeia,
especialmente pela sua filosofia. Indiscutivelmente, naqueles primórdios, já
havia intercâmbio cultural, qual o comércio de produtos materiais, entre os
povos ditos antigos. Os próprios gregos faziam menção ao saber dos egípcios,
por exemplo, mas, pouco a pouco, os gregos passaram a desenvolver um modo de
pensar incomum, progressivamente mais abstrato e sistemático, em meio à
predominância da cosmovisão religiosa, expressa em imagens e narrativas míticas,
ou mesmo em meio à presença de recursos de pensamento pragmáticos. Ao lado,
pois, da arte, do mito e da religião, a filosofia se construiu, tentando
depurar a compreensão de mundo da autoridade aristocrática tradicional pelos
filtros públicos da razão (o que levou René Descartes inaugurar mais tarde a
“filosofia moderna”, pela consideração de que “o bom senso (leia-se ‘razão’) é
a coisa mais bem partilhada do mundo”, podendo assim servir de instância última
de decisão do verdadeiro). Tal movimento de construção original da filosofia,
contudo, não foi abrupto: trata-se de um longo processo histórico e ainda
aberto, precisando avançar.
04. No que concerne à filosofia ocidental, sublinhamos que ela, em sua
origem, não substitui o mito, a arte, a religião e nem é substituída pela
ciência. Todos estes são diferentes modos humanos de se compreender e de se
expressar “a realidade”, a dita realidade. Se se relaciona geralmente a
filosofia à razão, a religião à autoridade e a arte ao sentimento, isto é
somente uma questão de ênfase. Autoridades (no sentido de princípios
norteadores), sentimentos e razão são dimensões do ser humano constantemente
ativos, apesar de suas alternadas predominâncias, conforme os desafios de vida
que a nós se apresentam.
05. Antes, portanto, do advento do que os gregos antigos passarão a
chamar de filosofia, compreensões mítico-religiosas e artísticas do mundo e de
si próprios eram o que os povos tinham. Depois do surgimento de uma compreensão
filosófica mais amadurecida, pôde-se ver, aqui e ali, entre os gregos mesmos ou
em outras culturas, vestígios, por exemplo, do que virá a ser a astronomia ou a
matemática, porém, fragmentário e, em geral, para fins imediatamente práticos,
como orientação de viagens, edificações e contabilidade de produção. Fato é que
são raros os exemplares que nos chegaram sobre isso e para os quais os
registros gráficos são importantes, relembrando aqui que muitos povos da
antiguidade ainda não haviam desenvolvido a escrita, e outros, ao
desenvolvê-la, mantiveram-na restrita a uma pequena casta, sacerdotal ou
palaciana, e, assim, para aplicabilidades igualmente contidas.
06. Nesse sentido, a lida dos gregos antigos com esses domínios tomou
contornos bem diferentes, ao ponto de, mais tarde, filósofos, como Aristóteles,
considerarem que a filosofia não teria origem por necessidade material ou
utilitária, mas na admiração, de sorte que desse modo se buscava o saber pelo
saber, o que levou a filosofia, por assim dizer, a “descolar-se” do imediatismo
prático, desdobrando-se, por uma necessidade a que denominarão “lógica”, em
abstrações pretensamente universais, ou seja, que teriam validade em qualquer
tempo e em todo lugar (o que não é verificável pelos nossos limites corpóreos,
mas o é por outra capacidade ou constitutivo humano: a alma ou razão. Foi
precisamente por não ter, a princípio, interesses práticos, como as ciências
que se constituirão em seguida, que alguns puderam afirmar, sem sentido
pejorativo, que a filosofia é “inútil”.
07. Por conseguinte, se as narrativas mítico-religiosas estão assentadas
predominantemente em nossa capacidade de imaginar (em imagens), as expressões
artísticas na imaginação e nos sentimentos (em emoções ou tendências passionais),
a filosofia evoca em nós o entendimento, a nossa capacidade de conceber ideias
(conceitos que, do mesmo modo, só nos acessíveis pelos “’olhos’ da razão”).
Também já na antiguidade, todavia alcançando maior destaque com o advento da
“nova ciência” na modernidade, sublinhou-se igual importância da experiência
para uma adequada compreensão e expressão da dita realidade, do mundo em que
pisamos.
08. É curioso que os gregos antigos tenham elaborado duas grafias para o
que temos entre nós por “palavra”. O equivalente mais antigo e então único era
“mythos”. Daí que se tinha as narrativas mítico-religiosas. Paulatinamente,
surgirão alguns a compreender e dizer as coisas diferentemente. Não para se
contrapor aos mitos e à religião, como muitos se equivocam em ainda dizer, mas
como um modo diferente de compreensão e expressão de mundo, a que denominarão
filosofia, termo que aproximou dois termos gregos: “philia” (amor,
amizade) e “sophia” (sabedoria), “filos-sofia” (amigo do saber). Foi
dessa maneira que veio a surgir um outro termo, dentro do antigo vocabulário
grego, que também significa originalmente “palavra”, pelo qual também se diz o
mundo, entretanto de modo diferente: “logos”. Perceberam que a filosofia
não era um modo “mítico” de compreender e dizer o mundo, mas “lógico” ou
“racional” (ao modo da posterior transcrição latina de “logos” para “ratio”).
É, pois, relativamente tardio considerar erro, falsidade ou mentira toda
interpretação da dita realidade que não se faça ao modo lógico ou racional,
chamando-a genericamente de “mito” ou “mítico”. Se a ciência tendeu a denominar
como erro, falso ou mentiroso tudo o que não se dizia ao seu modo, devemos, sem
mais demora, estar advertidos que o mito, a religião e a arte também são, como
a filosofia e a ciência, modos humanos de interpretação de mundo e, por
consequência, igualmente legítimos. Cada um desses modos, pelos seus limites,
se habilitam a tratar de diferentes demandas humanas, mas jamais de todas. Se,
por exemplo, se pergunta a um cientista enquanto cientista sobre o sentido da
vida, rigorosamente ele reconhecerá que não lhe é possível tratar de tal
questão. Poderemos encontrar abordagens sobre isso na arte poética, em alguma
perspectiva filosófica, em narrativas míticas ou textos religiosos, talvez. Em
contrapartida, quando temos como demanda uma interpretação de algo que nos
permita nele intervir ou manipulá-lo, é de se esperar que o conhecimento
científico esteja melhor habilitado a esse propósito.
09. A bem da verdade, o mito é a compreensão mais básica de toda cultura
e está enraizada em cada um que a ela pertença. Está tão enraizado em cada um
de nós e assim compartilhado, que dificilmente o percebemos como distinto de
nós mesmos. Assim internalizado, é por ele fundamentalmente que a nossa
percepção geral de mundo se faz e depende, de tal forma que também ele, o mito,
se confunde com o que prontamente tomamos por realidade, tão evidente que,
paradoxalmente, não o vemos mais distintamente. Ele seria o alinhavo que dá
unidade ao que habitualmente se traduz como senso comum. Noutras palavras, o
mito seria como que o nosso fundamento primeiro e último e a partir do qual
dizemos todos o resto, construindo, inclusive, as nossas propostas filosóficas
e científicas. É nesse sentido que, ao mesmo tempo, o mito se torna perigoso,
porquanto, como dizia um pensador brasileiro, ele nos dispensa de pensar.
Tomamo-lo por certo e a partir dele criticamos tudo mais. Todavia, ele próprio conscientemente
escapa de quem o possui ou é difícil de ser capturado por uma autocrítica. Dizemos
tudo isso para elucidar que essa impressão de que não temos uma compreensão
mítica da dita realidade é uma ilusão. Não percebemos em nós o mito
precisamente porque é nosso. Daí que, ao tratarmos de mitologias, geralmente
nos dirigimos ao outro, ao diferente de nós: vamos aos gregos ou às culturas
nórdicas antigas, às tradições nipônicas ou aos ancestrais afros. Entretanto,
de igual forma que estranhamos e até podemos desdenhá-las como absurdas, também
na perspectiva de outras culturas somos estranhos em nossos maneirismos de
pensamento, sentimento e comportamento, fundamentados em nossa intimidade indubitável
para nós próprios (e, assim, mítica). Considere aqui como último exemplo –
mesmo no que nos pareça ser do campo estritamente científico –, que Isaac
Newton (século XVIII), em sua Filosofia da Natureza, embasou a sua física em noções
que acreditava não necessitar de explicação, como “conhecidíssimos de todos”: o
tempo, o espaço, o lugar e o movimento. Mas isso também nos faz lembrar de
outro pensador, muito anterior, do final da antiguidade e o maior influenciador
da idade média, Aurélio Agostinho, que dizia saber muito bem o que era o tempo,
se ninguém lhe perguntasse; do contrário, não sabia o que dizer. Sendo assim, é
o encontro com o diferente que verdadeiramente nos dá a ocasião de nos fazer
notar em nós próprios esse fundamento mítico e vice-versa. Contudo, mesmo esse
encontro e partilha acabarão nos encaminhando para outras noções comuns e
míticas, que sustentarão – e a partir das quais elaboraremos – nossas novas
críticas.
10. Se a filosofia é comumente apresentada
como avessa à autoridade, deve-se bem entender que se trata de se fazer avessa
à autoridade arbitrária (como historicamente marcou a imagem mítico-religiosa
de mundo). Afinal, há como sustentar que a própria filosofia tem por sua
autoridade a razão. Esta razão, no entanto - como já vimos -, não pertence a
alguns homens apenas, mas a todos igualmente. É precisamente essa
universalidade, associada ao princípio de que também há uma unidade na dinâmica
dos acontecimentos, que denunciará processualmente os frágeis fundamentos das
muitas discriminações existentes entre os homens e mantidas pelas imemoriais
tradições mítico-religiosas. É por isso que, muitas vezes, vemos a filosofia em
entrechoques com o mito e a religião. Desde então, toda compreensão mítico-religiosa
que não tiver a capacidade de se traduzir em termos racionais será repudiada
pela filosofia e sentenciada supersticiosa. Ou, em termos mais amplos, tudo o
que não passar pelo crivo da razão (crítica) será apontado pela filosofia como
quimera. E uma vez que cada um de nós é dotado de razão, cada um tem igual
autoridade para inspecionar a solidez do que culturalmente herdamos dos nossos
antepassados.
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Observe nesse mapa que as antigas cidades-Estados gregas não se
concentravam somente no que hoje é o país da Grécia, mas espalhavam-se por
territórios além, que hoje pertencem ao país da Itália e ao país da Turquia.
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11. No sentido do que até aqui escrevemos, conseguimos retroagir
maximamente a filosofia aos gregos antigos dos séculos VI ao IV a. C. De
fragmentos de escritos desses ou sobre esses homens, percebemos já traços
característicos do que denominamos “razão”. Desse modo, consensualmente a
comunidade filosófica se volta para Tales, da cidade-Estado grega de Mileto,
como o primeiro filósofo do Ocidente. Tales afirmava que a água é a origem, o
princípio, o governo (arché) de todas as coisas existentes no mundo. Não
obstante a aparente simplicidade de sua afirmação, ela anunciava um modo
revolucionário de tratar o mundo, principalmente por dois aspectos: 1) primeiramente,
implicava que a origem do mundo era imanente (e não transcendente ao mundo) e,
por se encontrar no próprio mundo no qual estamos inseridos, estaria como que
ao nosso alcance conhece-lo por nossas próprias capacidades de observação e de
entendimento, fazendo-nos independentes dos deuses que que estariam para além
da nossa condição mundana (lembrando-nos que, no tempo de Tales ainda predominava
a cosmovisão de que tudo o que acontece e nos acontece no mundo era obra do
entrecruzamento das vontades caprichosas dos deuses); 2) em segundo lugar,
implicava uma redução da multiplicidade à unidade, medida que fazia as coisas
comensuráveis entre si, intercambiáveis, e não mais isoladas, irredutíveis
manifestações do politeísmo. O teorema matemático que leva o seu nome é
igualmente, como qualquer outro teorema, índice de que há uma unidade e
estabilidade no mundo, apesar de toda a sua diversidade e mutabilidade imediata,
as variáveis.
12. Tales teve um discípulo, Anaximandro de Mileto, que também defendeu
uma unidade imanente como base de toda determinação múltipla do mundo, mas a
tomou como algo visivelmente “indeterminado”, prenunciando a capacidade de
“abstração” que perfila a racionalidade, à medida que dispensa cada vez mais o
uso de algo do qual possamos ter imagem (por sensação ou por imaginação) pela
elaboração e articulação de conceitos (por entendimento).
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Para facilitar a compreensão dessa capacidade de abstração que
possuímos, percebam que há o que não podemos ter por certo, sem que o seja
por nenhuma sensação ou, por exemplo, por imagens construídas, com clareza ou
distinção, a partir do sentido da visão ou tato, mas, sim, por uma faculdade
outra, a qual denominamos “entendimento”. O entendimento é, portanto, uma
capacidade em nós que nos permite ir mais longe em determinadas compreensões.
Podemos ver uma figura fechada hexagonal num plano ou tatear um cubo, assim
compreendendo-os e sabendo a diferença entre eles por essas nossas faculdades
de sentir e imaginar. Não acontece o mesmo, porém, se queremos tratar de um
polígono de 5.382 lados e outro de 3.947. Compreendemos o que sejam e a
diferença entre eles por entendimento, como que dizendo: entendo-os, mas não
os consigo sequer sentir ou imaginar.
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13. Do que temos, Anaximandro diz simplesmente que é “a separação” que
demostra a sua tese. Interpretamos isso do seguinte modo: uma vez que o
princípio constitutivo das múltiplas coisas, assim compostas e determinadas, é
ele mesmo, como tal, visivelmente “indeterminado”, podemos tomar quaisquer
dessas coisas e decompô-las – “separá-las” - , decompondo igualmente as partes
resultantes e assim sucessivamente, ultrapassando, inclusive, o ponto em que já
não o possamos mais fazê-lo empiricamente, dando continuidade ao processo por
força do entendimento, concluindo que, enfim, deverá restar algo
“simples” ou “elementar”, ou seja, não mais composto e, por conseguinte, que
não mais se decompõe ou se pode separar – o que Anaximandro denominou
“apeiron”.
14. Anaximandro, por sua vez, também teve um discípulo, chamado Anaxímenes
de Mileto. Anaxímenes apresentou o “ar”, um elemento que não nos é tão
diretamente dado na natureza, como a “água” de Tales, e nem tão abstrato qual o
“indeterminado” de seu mestre, como aquilo de que todas as coisas provêm. Isto poderia
aproximá-lo daquela tradição mítico-religiosa, conforme a qual é um pneuma, é
um “sopro”, é um espírito que inspira, que preenche e que sustenta cada parte
constitutiva da vida. Todavia, o tratamento que Anaxímenes dá à sua proposição
o afasta dessas narrativas mítico-religiosas. Aliás, procura demonstrar que o
mesmo ou a unidade (quantitativa) pode gerar a multiplicidade (qualitativa),
aparentando-se diversamente, através do processo observável de rarefação e
condensação, procurando, de todo modo, unificar, sistematizar e explicar a transformação
dos estados da matéria, ou seja, racionalizar a dinâmica do cosmos. Esse
entusiasmo por esse novo modo de abordagem da natureza, permitida pela
racionalidade filosófica, podemos testemunhá-la, enfim, em um de seus
fragmentos que nos chegou, segundo o qual “a razão precisa da experiência; mas a
experiência nada vale sem a razão.”
15. Como a Escola de Mileto, tivemos também a Escola Pitagórica, que foi
fundada por Pitágoras, da cidade-Estado de Samos. Pitágoras teria intuído e
defendido que tudo era medida, ou melhor, que cada coisa era conforme a sua
medida ou o seu número, o que expressaria o ordenamento das coisas, uma
harmonia que se observa presente na origem da palavra “cosmos”, em oposição ao
“caos”. Portanto, na fundamentação de tudo estaria a unidade, o “um”, que, se
somado a si mesmo, gera, sucessivamente, números pares e ímpares, dando origem
a todos os opostos, que, em suas relações (matemáticas) são origem e justificam
toda a diversidade do mundo. Todavia, os números para os pensadores pitagóricos
tinham significados para além do que consideramos, hoje, na matemática. A
Escola Pitagórica produziu uma cabala, segundo a qual o “um” é geometricamente o
ponto, o dois, a reta (relação entre dois pontos), o três, o mínimo de plano, e
o quatro ,o sólido, realidades de que tudo mais é feito: 1 + 2 + 3 + 4 = 10. O
dez, portanto, é o número da totalidade e da harmonia, donde o triângulo
equilátero, estável pela igual medida dos seus lados, ilustra o equilíbrio do
universo, embora seja o pentagrama o símbolo da Escola Pitagórica,
especialmente por expressar a proporção, a justa proporção do universo
(pentágonos concêntricos). Pitágoras encantou-se com as relações matemáticas
que descobria, percebendo, inclusive, que a harmonia musical também respeitava
determinadas proporções numéricas, a “justa medida” (o que resultou na escala
musical ocidental que hoje conhecemos). É essa mesma constante ou proporção que
encontramos igualmente presente no famoso teorema geométrico que leva o seu
nome.

16. Notamos, antes, que a Escola de Mileto ficou conhecida pela sua
defesa de uma unidade, simples e indestrutível, constitutiva da “physis”, ou
seja, de toda a diversidade natural, composta e transitória, que imediatamente
se apresenta aos nossos sentidos, mas que só se alcança pelo uso da nossa
capacidade racional. Mas poderia um só elemento justificar toda riqueza que
observamos no mundo? Empédocles, da cidade-Estado de Agrigento, pensou que não,
propondo quatro “raízes” para o que existe: terra, água, fogo e ar. A Escola
Pitagórica já havia sugerido esses quatro princípios na base da existência, mas
foi Empédocles que os defendeu mais enfaticamente. Além disso, inovou o
pensamento filosófico com dois princípios coordenadores dos movimentos dessas
“raízes”: o amor, como sua força agregadora; o ódio, como sua força
desagregadora. Tudo isso responderia pela mutabilidade que presenciamos na
natureza: as raízes indestrutíveis se compõem ou se justapõem, por força do
princípio do amor, e se decompõem, por força do princípio do ódio. Logo, o que
vemos nascer e morrer são os compostos; as raízes, por sua vez, são eternas e,
enquanto tais, imutáveis.
17. Na esteira desses filósofos aqui já considerados, vieram outros, como
Anaxágoras de Clazômenas, defensor da existência de uma inteligência que
perpassaria todo universo, agregando e desagregando os elementos que tudo
formam, a que ele chamou de “sementes”, e que são em número infinito, ou como
Leucipo de Mileto (ou Eléia) e Demócrito de Abdera, fundadores do pensamento
atomista (de “a-tomon”, átomo, que significa o que não se pode cortar ou partir),
advogando a existência de uma pluralidade de elementos que se movem no vazio e
que, por colisões entre eles, se juntam formando os compostos, distintos entre
si por atributos geométricos.
18. Toda essa discussão acerca do(s) elemento(s) imanente(s) de que tudo
se origina foi, todavia, entrecortado por uma disputa sobre a condição
verdadeira do mundo, que inaugurou, por assim dizer, duas vertentes, entre as
quais todos os filósofos vão se distribuindo no decorrer da história em
conformidade com as suas tendências. Heráclito de Éfeso, cognominado “o
obscuro”, será o aporte da vertente que toma o movimento conflitante (ou
dialético) das coisas do mundo como real. Parmênides de Eleia será, no extremo
oposto, o aporte da vertente que toma o movimento do mundo como ilusório, sendo
o verdadeiro, propriamente dito, imutável, o qual somente a capacidade racional
humana alcança, ultrapassando o aparente sensível. Sobre esses dois últimos
filósofos, assista ao vídeo pelo “link” seguinte:
https://drive.google.com/file/d/1at831d1KXq9Xdyw6U4W6VnK-TQzIExrM/view?usp=drivesdk
ALGUNS FRAGMENTOS DE TEXTOS RELATIVOS AOS PRIMEIROS FILÓSOFOS:
TALES DE MILETO (624 – 547 a. C.):
A maior parte dos filósofos antigos concebia somente princípios materiais como origem de todas as coisas (...). Tales, o criador de semelhante filosofia, diz que a água é o princípio de todas as coisas (por esta razão afirmava também que a terra repousa sobre a água). (Aristóteles, Metafísica).
Tales e sua escola: o cosmos é um. (Aécio, Sobre a opinião dos filósofos).
ANAXIMANDRO DE MILETO (610 – 547 a. C.):
Afirma que não é a água ou qualquer outro o elementar, mas algo de diferente natureza, ilimitada, da qual seriam formados todos os céus e os cosmos naqueles contidos. (Simplício da Cilícia, Comentários).
ANAXÍMENES DE MILETO (585 – 524 a. C.):
Como nossa alma, que é ar, nos governa e sustém, assim também o sopro e o ar abraçam o cosmos. (Fragmento, único).
HERÁCLITO DE ÉFESO (550/540 – 480/470 a. C.):
Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida. (Fragmento, 30).
Descemos e não descemos aos mesmos rios; somos e não somos. (Fragmento, 49a).
Eles não compreendem como, separando-se, podem harmonizar-se: harmonia de forças contrárias, como o arco e a lira. (Fragmento, 51).
A guerra é o pai de todas as coisas e de todas o rei; de uns fez deuses, de outros, homens, de uns, escravos, de outros, homens livres. (Fragmento, 53).
O caminho da espiral sem fim é reto e curvo, é um e o mesmo. (Fragmento, 59).
Imortais, mortais; mortais, imortais. A vida destes é a morte daqueles e a vida daqueles é a morte destes. (Fragmento, 62).
Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se; avança e se retira. (Fragmento, 91).
A doença torna a saúde agradável; o mal, o bem; a fome, a saciedade; a fadiga, o repouso. (Fragmento, 111).
O pensamento é comum a todos. (Fragmento, 113).
A natureza ama esconder-se. (Fragmento, 123).
A mais bela harmonia cósmica é semelhante a um monte de coisas atiradas. (Fragmento, 124).
O frio torna-se quente, o quente frio, o úmido seco e o seco úmido. (Fragmento, 126).
PITÁGORAS DE SAMOS (571/570 – 497/496 a. C.):
Os assim chamados pitagóricos, tendo-se dedicado às matemáticas, foram os primeiros a fazê-las progredir. Dominando-as, chegaram à convicção de que o princípio das matemáticas é o princípio de todas as coisas. E como os números são, por natureza, os primeiros entre estes princípios, julgando também encontrar nos números muitas semelhanças com seres e fenômenos, mais do que no fogo, na terra e na água, afirmavam a identidade de determinada propriedade numérica com a justiça, uma outra com a alma e o espírito, outra ainda com a oportunidade, e assim todas as coisas estariam em relações semelhantes; observando também as relações e leis dos números com as harmonias musicais, parecendo-lhes, por outro lado, toda a natureza modelada segundo os números, sendo estes os princípios da natureza, supuseram que os elementos dos números são os elementos de todas as coisas e que todo o universo é harmonia e número. E recolheram e ordenaram todas as concordâncias que encontravam nos números e harmonias com as manifestações e partes do universo, assim como com a ordem total. (Aristóteles, Metafísica).
PARMÊNIDES DE ELEIA (530 – 460 a. C.):
[A deusa da Justiça e do Direito:] E agora vou falar; e tu escutas as minhas palavras e guarda-as bem, pois vou dizer-te dos únicos caminhos de investigação concebíveis. O primeiro (diz) que (o ser) é e que o não-ser não é; este é o caminho da convicção, pois conduz à verdade. O segundo, que o não-ser é, e é necessário; esta via, digo-te, é imperscrutável; pois não podes conhecer aquilo que não é – isto é impossível –, nem expressá-lo em palavra.
Pois pensar e ser é o mesmo.
Contempla como, pelo espírito, o ausente, com certeza, se torna presente; pois ele não separará o ser de sua conexão ao ser, nem para desmembrar-se em uma dispersão universal e total segundo a sua ordem, nem para reunir-se.
Pouco me importa por onde eu comece, pois para lá sempre voltarei novamente.
Necessário é dizer e pensar que só o ser é; pois o ser é, e o nada, ao contrário, nada é: afirmação que bem deves considerar. Desta via de investigação, eu te afasto; mas também daquela outra, na qual vagueiam os mortais que nada sabem, cabeças duplas. Pois é a ausência de meios que move, em seu peito, o seu espírito errante. Deixam-se levar, surdos e cegos, mentes obtusas, massa indecisa, para a qual o ser e o não-ser é considerado o mesmo e não o mesmo, e para a qual em tudo há uma via contraditória.
Jamais se conseguirá provar que o não-ser é; afasta, portanto, o teu pensamento desta via de investigação, e nem te deixes arrastar a ela pela múltipla experiência do hábito, nem governar pelo olho sem visão, pelo ouvido ensurdecedor ou pela língua; mas com a razão decide da muito controvertida tese, que te revelou a minha palavra.
Resta-nos assim um único caminho: o ser é. Neste caminho há grande número de indícios: não sendo gerado, é também imperecível; possui, com efeito, uma estrutura inteira, inabalável e sem meta; jamais foi nem será, pois é, no instante presente, todo inteiro, uno, contínuo. Que geração se lhe poderia encontrar? Como, de onde cresceria? Não te permitirei dizer nem pensar o seu crescer do não-ser. Pois não é possível dizer nem pensar que o não-ser é. Se viesse do nada, qual a necessidade teria provocado seu surgimento mais cedo ou mais tarde? Assim, pois, é necessário ser absolutamente ou não ser. E jamais a força da convicção concederá que do não-ser possa surgir outra coisa. Por isto, a deusa da Justiça não admite, por um afrouxamento de suas cadeias, que nasça ou que não pereça, mas mantém-no firme. A decisão sobre este ponto recai sobre a seguinte afirmativa: ou é ou não é. Decidida está, portanto, a necessidade de abandonar o primeiro caminho, impensável e inominável (não é o caminho da verdade); o outro, ao contrário, é presença e verdade. Como poderia perecer o que é? Como poderia ser gerado? Pois se gerado, não é, e também não é, se devera existir algum dia. Assim, o gerar se apaga e o perecimento se esquece.
Também não é divisível, pois é completamente idêntico. E não poderia ser acrescido, o que impediria a sua coesão, nem diminuído; muito mais, é pleno de ser; por isso, é todo contínuo, porque o ser é contíguo ao ser.
Por outro lado, imóvel nos limites de seus poderosos liames, é sem começo e sem fim; pois geração e destruição foram afastadas para longe, repudiadas pela verdadeira convicção. Permanecendo idêntico e em um mesmo estado, descansa em si próprio, sempre imutavelmente fixo e no mesmo lugar; pois a poderosa necessidade o mantém nos liames de seus limites, que o cercam por todos os lados, porque o ser deve ter um limite; com efeito, nada lhe falta; fosse sem limite, faltar-lhe-ia tudo.
O mesmo é pensar e o pensamento de que o ser é, pois jamais encontrarás o pensamento sem o ser, no qual é expressado. Nada é e nada poderá ser fora do ser, pois Moira o encadeou de tal modo que seja completo e imóvel. Em consequência, será (apenas) nome tudo o que os mortais designaram, persuadidos de que fosse verdade: geração e morte, ser e não-ser, mudança de lugar e modificação do brilho das cores.
Porque dotado de um último limite, é completo em todos os lados, comparado à massa de uma esfera bem redonda, equilibrada desde seu centro em todas as direções; não poderia ser maior ou menor aqui ou ali. Pois nada poderia impedi-lo de ser homogêneo, nem aquilo que é não é tal que possa ter aqui mais ser do que lá, porque é completamente íntegro; igual a si mesmo em todas as suas partes, encontra-se de maneira idêntica em seus limites.
Com isto, ponho fim ao discurso digno de fé que te dirijo e às minhas reflexões sobre a verdade; e a partir deste ponto aprende a conhecer as opiniões dos mortais, escutando a ordem enganadora de minhas palavras.
Eles convieram em nomear duas formas, uma das quais não deveria sê-lo – neste ponto enganaram-se; separaram, opondo-as, as formas, atribuindo-lhes sinais que as divorciam umas das outras: de um lado, o fogo etéreo da chama, suave e muito leve, idêntico a si mesmo em todas as partes, mas não idêntico ao outro; e de outro lado, esta outra que tomaram em si mesma, a noite obscura, pesada e espessa estrutura. Participo-te toda esta ordem aparente do mundo, a fim de que não te deixes vencer pelo pensamento de nenhum mortal. (Fragmentos, 2 a 8).
EMPÉDOCLES DE AGRIGENTO (495/490 – 435/430 a. C.):
É impossível que algo possa ser gerado do que não é, e jamais se realizou nem se ouviu dizer que o que é seja exterminado; o que é sempre estará lá, onde foi colocado por cada um. (Fragmento, 12).
E no Todo nada há de vazio ou de supérfluo. (Fragmento, 13).
Duas coisas quero dizer; às vezes, do múltiplo cresce o uno para um único ser; outras, ao contrário, divide-se o uno na multiplicidade. Dupla é a gênese das coisas mortais, duplo também o seu desaparecimento. Pois uma gera e destrói a união de todos (elementos); a outra, (apenas) surgida, se dissipa, quando aqueles (os elementos) se separam. E esta constante mudança jamais cessa: às vezes todas as coisas unem-se pelo Amor, outras, separam-se novamente (os elementos) na discórdia do Ódio. Como a unidade aprendeu a nascer do múltiplo, assim geram-se as coisas e a vida não lhes é imutável; na medida, contudo, em que a sua constante mudança não encontra termo, subsistem eternamente imóveis durante o ciclo.
Escuta as minhas palavras! Pois o estudo te fortalece o entendimento. Como já disse antes, ao expor o objetivo de minha doutrina, duas coisas quero anunciar. Às vezes, do múltiplo cresce o uno para um único ser; outras, ao contrário, divide-se o uno na multiplicidade: fogo e água e terra e do ar a infinita altura; e separado deles, o Ódio funesto, igualmente forte em toda parte, e o Amor entre eles, igual em comprimento e largura. Contempla-o com o teu espírito, e não permaneças sentado, com olhos pasmos. A ele, julgam-no os mortais enraizado em seus membros, e com ele nutrem pensamento de amor e realizam obras de união; enlevo chamam-no, e Afrodite. E nenhum dos homens mortais sabe que ele se move circularmente entre eles (os elementos). Quanto a ti, escuta a sequência sem equívocos de meu discurso. Pois todos aqueles (elementos e forças) são de igual força e idade quanto à sua origem, embora cada um deles tenha missões diversas, sua natureza particular, predominando, ora um, ora outro, no ciclo do tempo. Fora disto nada se acrescenta e nada deixa de existir. Pois tivessem perecido até seu termo, já não existiriam. E o que poderia aumentar este Todo e donde poderia vir? Como poderiam perecer, pois nada é deles vazio? Não, somente eles são, e circulando uns através dos outros, tornam-se ora isto ora aquilo, e assim para sempre os mesmos. (Fragmento, 17).
DEMÓCRITO DE ABDERA (460 – 370 a. C.):
Em verdade, nada aprendemos que seja infalível, mas somente o que nos vem através da disposição momentânea de nosso corpo e dos (átomos) que nos atingem ou se lhe opõem. (Fragmento, 9).
Há duas formas de conhecimento, uma autêntica e a outra obscura (inautêntica). À obscura pertencem todos os seguintes: a vista, o ouvido, o olfato, o gosto, o tato; a outra é autêntica, daquela completamente separada. Quando a obscura se revela incapaz de ver o menor, ou de ouvir, de cheirar, de degustar, de tocar, fazendo-se necessário levar a pesquisa ao que é mais sutil, então toma-lhe o lugar a forma autêntica, dotada de um órgão de conhecimento mais fino. (Fragmento, 11).
Assim como Leucipo, também Demócrito, seu discípulo, dizia que o cheio e o vazio são os princípios, sendo um existente e o outro não-existente. Pois os átomos são a matéria das coisas e todo o resto se segue de suas diferenças. Estas são três: forma, movimento e ordem. (Simplício da Cilícia, Comentários).
Demócrito diz que em realidade não há cores. Pois o cheio e o vazio, os átomos, são desprovidos de qualidades. Contudo, as composições dos átomos, conseqüentes de sua ordem, forma e de seu movimento, são coloridas. (Aécio, Sobre a opinião dos filósofos).